quarta-feira, maio 10

Sobre Che e Madruga




Circula por aí uma camiseta que, quando admirada à distância, enxerga-se a figura revolucionária de Che Guevara, mas ao ver de perto depara-se com a figura do Seu Madruga, do seriado mexicano Chaves.

As imagens de Che e Madruga, como todo imagem, são passíveis de assumir qualquer sentido. A camiseta bem-humorada conota também o esvaziamento ideológico e contextual de ambas imagens. A imagem pode distorcer infinitamente da realidade, e nota-se hoje como ela não necessariamente possui um correspondente real, concreto.

A sociedade que cultua imagens, dependendo do objetivo a ser alcançado – mercadológico ou moral - extrai ou enxerta significado à elas.

Ao sintetizar toda a essência ideológica e histórica de Che Guevara em sua foto, o risco de se perder a noção total das ideologias de acordo com as mutações dessa imagem, é gigantesco. A imagem de Che, de uma forma muito provavelmente alheia a sua vontade, foi reproduzida incansavelmente, ultrapassando seus ideais, a ponto de suas representações serem mais conhecidas que sua história e seus ideais.

O colunista Brook Larmer da revista Newsweek de julho de 1997, enumerou em seu texto razões que fazem de Guevara uma imagem apta para todo tipo de marketing:
“Ele parece representar, neste mundo consumista, um ideal de pureza, o paradigma do homem honesto, desprendido e em busca de aperfeiçoar sua personalidade. Além disso, morreu jovem, aos 39 anos, era bonito e ficava muito bem com a boina do Exército!”
Essa aura de “pureza”, que toda imagem a ser consumida necessita ter, contrasta e é de maneira conveniente dissociada das idéias políticas de Che.
Che esperava espalhar a revolução socialista, pregava a luta armada para combater o imperialismo, e ironicamente sua imagem é usada como uma opção certeira para o marketing e no máximo, no caso da camiseta, combate o mal-humor.


por Juliana Gonçalaves

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Olá! Esqueci de publicar a bibliografia da onde extrai a declaração do colunista Brook Larmer da Newsweek. O nome do livro é Revolução Cubana – História e problemas atuais. Editora Xamã, 1998, a autora é Alice Havranek.
Abs.

10/5/06 16:00

 
Anonymous Anônimo said...

É inacreditável como a sociedade capitalista coopta, qualquer forma de expressão que possa contrariar ou pôr em risco seus interesses econômicos.
Tudo vira consumo!
Até, o pensar!

Bom texto!

11/5/06 15:42

 

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